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A crença: periódico redigido por acadêmicos

por Maria Ione Caser da Costa
A revista A Crença: periódico redigido por acadêmicos apareceu pela primeira vez em São Paulo no dia 15 de maio de 1873. Logo abaixo do título, a epígrafe inspirada no pensador francês Eugene Pelletan, “La jeunesse avance” que, em português seria A juventude avança, sinaliza para o desejo dos estudantes da Academia de S. Paulo, a escola de Direito, se integrarem às movimentações da imprensa, em especial àquelas ligadas à causa republicana. A publicação é mais um fruto da escola, fundada em 1818, em torno da qual se dava muito da vida letrada em terras paulistas, no século XIX.

A informação de responsabilidade pela publicação não foi encontrada nas páginas do periódico, mas o acesso a outras fontes de pesquisa permitiu descobrir que Martim Francisco Ribeiro de Andrada (1853-1927) escritor, advogado e político, quando ainda estudante, foi o editor d’A Crença, que foi impressa na Typographia Allemã, situada na rua do Commercio, nº2.

Os ideais de defesa da inteligência e do saber são apresentados com todas as letras no editorial:

É forçoso que a Academia de S. Paulo jamais declinou tanto como nos tempos actuaes.
Sem que exista em seu seio uma daquellas antigas associações que marcarão out’ora a epocha de seu desenvolvimento litterario e scientifico; sem que apresente, na arena vasta e honrosa do jornalismo, um órgão onde a bandeira das grandes idéas receba sob sua sombra benéfica os neophytos que almejão tomar parte nas lutas do pensamento, a Academia do presente, erma de aspirações e semelhante uma dessas entidades prematuramente decrépitas, parece viver apenas recordando os louros colhidos no passado!
Como um protesto contra esta triste e decadente actualidade, ou como um incentivo para aquelles que ainda não desesperarão totalmente da salvação das tradições acadêmicas, surge A Crença, modesta representante das idéas de um grupo composto de moços que querem partilhar das glorias alcançadas nas pugnas da intelligencia e do trabalho.

Como boa parte dos pequenos periódicos, este manifestava uma isenção em relação à política partidária, pretendia representar um grupo com ideias sólidas, daí no nome da publicação:

Embora a redacção desta folha não tenha posição ao [ilegível] qualquer partido político, [ilegível] lhe é deixar de curvar-se reverente diante das idéas adiantadas que agitão os espíritos neste século de progresso moral e de adiantamento material. A liberdade, fortificada pela razão e guiada na pratica ela ordem, é a verdadeira origem onde irá buscar vigor toda a opinião que sustentarmos.
Se mais tarde o desanimo sustar a nossa tentativa, alguém renoval-a-há quiçá com resultado mais vantajoso, desde que convencer-se de que irá desenterrar desgraças e reviver questões no mesmo instante em que diligenciar a criação de um órgão puramente acadêmico, pois ahi existe a origem constante de scisões improfícuas. Eis a razão porque dizemos ser a Crença simples representante das idéas de um grupo, e não filha da vontade unânime da Academia de S. Paulo.

A última nota publicada no jornalzinho era relativa à assinatura: “Recebem-se assignaturas para este jornal por 3$000 até o fim do anno acadêmico. Acha-se encarregado de todos os negócios concernentes a esta redacção o nosso collega e amigo o Sr. Martinho Duarte Pinto Monteiro, que póde ser procurado á rua de S. João n. 28”.

Na Biblioteca Nacional podem ser consultados os três primeiros exemplares, que foram estruturados em quatro páginas de três colunas cada. Não apresentou ilustrações.
O conteúdo apresentado são contos, notícias diversas, poesias e folhetim. Os colaboradores são A. Evaristo Marinho; F., M., M. Francisco Junior, N., R. G. e Z.

Encerrando o terceiro número uma nota com o título “Jornaes acadêmicos” aponta para os frutos colhidos pelos editores de A Crença, na tentativa de fortalecer o mercado com publicações literárias.

Mais dous representantes dignos da actual academia surgirão na arena grandiosa da imprensa!
Quando a Crença apresentou-se para tomar parte nas luctas invejáveis do jornalismo, nós, invocando o auxilio e a benevolência dos collegas, declaramos desejar sinceramente que o nosso procedimento servisse de incentivo para os que ainda tivessem fé e aspiração.
Felizmente o apello teve uma resposta digna do maior elogio: o Porvir e o Tribuno, jornaes habilmente redigidos por alguns acadêmicos, também protestão contra a indolência que parecia haver se apossado do espírito da actual mocidade.
Os novos lidadores defendem, como nós, as idéas adoptadas pelos soldados da democracia.
Parabens ao paiz! Enquanto a velha geração curva-se diante dos prejuízos de outras eras, a geração que nasce trabalha para adquir [sic] maior somma de liberdade para o povo.

Selecionamos o poema Solidão, de autoria de N., publicado no segundo exemplar

As vezes triste e só, em tarde amena,
Me inclino á sombra hospitaleira e grata
Dessas arvores frondiferas, viçosas,
Que crescem na brenhosa e escura mata.

Aqui a catadupa se despenha
Em amplos borbotões sobre a campina,
Dizendo mil poéticos segredos
Á odorífera rosa púrpura

Ali em níveo lago os colhereiros
Flucinantes revêem sua rósea imagem,
E a florinha da espessa laranjeira
Se agita ao oscular da tênue aragem.

Do rei da luz os derradeiros raios
Inda se espelhão no crystal dos rios,
E as auras vespertinas adejando
Inda exhalão suaves murmúrios.

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