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A Ventarola: periodico dos alunnos do Lyceu de Artes e Officios

por Maria Ione Caser da Costa
Surgia a 15 de setembro de 1881, na cidade do Rio de Janeiro A Ventarola, um periódico sob a responsabilidade dos alunos do Liceu de Artes e Ofícios e editado pela Typographia da Tribuna Militar, localizada à rua da Carioca número 31, local que também funcionava a redação. Tinha a intenção de publicar quatro exemplares por mês, “porém sem dias determinados” (Pode ser confirmado na seção Avisos, última página do primeiro exemplar. http://memoria.bn.br/DocReader/220698/4).

Não apresenta valor de venda do número avulso, somente o valor das assinaturas: $500 a mensal e 1$500 a trimestral.

Em suas páginas não são mencionados os nomes dos editores, apenas informa que é um periódico sob a responsabilidade dos alunos do Liceu de Artes e Ofícios, uma mocidade que tinha no culto à ciência a sua orientação. Assim se apresentam em seu primeiro editorial:

Apparece hoje na arena deslumbrante do jornalismo brasileiro este pequeno periódico, que symbolisando o pensamento de uma fracção da nossa mocidade, vem aggregar-se a falange dos esforçados defensores das idéas avançadas do nosso tempo da geração actual.

Continuam o editorial enaltecendo a mocidade e a juventude que trazem o poder da força e que desempenham “uma sublime figura na vida dos povos. ”

Graficamente se apresentava dividido em três colunas, separadas por um fio simples utilizando um traço pequeno para evidenciar e separar os artigos e as notas publicadas. Não apresenta ilustração.

Em suas páginas podem ser encontrados os acontecimentos curiosos da época, algumas charadas – era ofertado um livro ao primeiro decifrador, notícias diversas e folhetins. Apresenta também uma relação das publicações que circulavam à época bem como relação das publicações que acusavam o recebimento d’A Ventarol em suas redações.

Também são publicados os agradecimentos referentes aos títulos que foram enviados a redação de A Ventarola. Dentre eles, destacamos a nota na segunda página do exemplar número 2, publicado em 24 de setembro, referente ao recebimento de Aura: periódico litterario e recreativo, editado também em 1881 - outro periódico sob a responsabilidade de integrantes do Liceu de Artes e Ofícios - e que também pode ser encontrado neste dossiê: “recebemos o 1º numero da filha do Lyceu, ora bollas, queríamos dizer da Aura. Que espiga! ”.

Algumas seções: Chronica, De Boca em Boca, Bernardices, Poesias, Variedades, Avisos e Secção Scientifica.

Uma notícia que se fez presente em todos os exemplares d’A Ventarola, de maneira informativa e sucinta aparece em destaque no quarto exemplar: a da primeira turma de mulheres que estudou no Liceu de Artes e Ofícios. Na época foi considerada uma “revolução social”. O acontecimento foi assim narrado:

Um grande facto da-se hoje as 7 horas da noite, a abertura do Lyceu para o sexo feminino. Ninguem por certo á quem tenha chegado tão faustosa noticia deixará de ter grande transporte de alegria, e tanto mais quando se lembrarem que é no Brazil neste paiz que começa agora a aparecer na historia brilhante dos povos, que existe uma casa de educação gratuita, e que é frequentada por 1600 e tantos indivíduos que sem distinção de classe e nacionalidade, vão ahi receber a instrucção tendo somente em mira levar a palma sobre seus colegas no aproveitamento pelo estado.
Ainda mais: amanhã estára o Lyceu dando a instrucção a 600 e tantos meninas e moças que já vão percebendo melhor quaes os lugares que deverão ocupar na escala social e que para esse fim já se preparam, bem assim para o desempenho da grande função da maternidade.

Na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional podem ser encontrados três exemplares: os números 1, 2 e 4. Este último publicado em 11 de outubro de 1881. Com ele, encerra-se a coleção existente na Biblioteca Nacional. Não sabemos se houve continuação. Mas o desejo de continuidade existia, pois, ao encerrar o último artigo do quarto exemplar aparece o termo “continua”, que sabemos, indica continuação no exemplar seguinte.

Abaixo copiamos o único poema encontrado nesta publicação. Como todos os outros artigos, este também não está nomeado, é o soneto intitulado A Desordem e aparece no exemplar número 2.


A Desordem

Um cego, analysando uma pintura,
Á um surdo disse, baixo: - Não ‘stá bôa!
Um mudo, que era o autor, com isto assôa,
E logo, em alta voz, vingar-se jura.

Vem um doudo, e, com fallas de brandura
Tenta a bulha acabar; eis logo soa
Bofetada sem mão que tudo atroa,
E começa maior desenvoltura!

Ao ouvir tal barulho o vetuperio,
Entrevado, que ha annos não bulia,
Os corre a pontapés p’r’o o cimiterio!

Eis surge um regedor que ali jazia,
E reassumindo o antigo ministerio,
Praça lhes faz sentar na infantaria!


A Ventarola
Ano 1, n.2 (24 set. 1881).

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