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Gigolette: genero alegre: semanario illustrado

por Maria Ione Caser da Costa
A revista semanal Gigolette surgiu em janeiro de 1916 no Rio de Janeiro. Sua redação funcionava na Avenida Rio Branco, 110, no Edifício Jornal do Brasil.

Na Biblioteca Nacional podem ser consultados três exemplares da publicação, os números 1, 2 e 3. Nos dois primeiros, a data de edição descrita é somente o mês de janeiro. No terceiro, aparece a data completa, 28 de janeiro de 1916.

As capas dos exemplares se apresentam com nuances de uma mesma coloração. Predominam a cor vermelha e abóbora. E em cada uma delas, a fotografia de uma bonita senhorita.

Nos dois primeiros exemplares o título da revista encontra-se na parte superior, seguidas das fotos, que estão em moldura redonda e, no entorno, aparecem alguns desenhos: um cupido na lateral esquerda, uma bolsa cheia de flechas na parte inferior da foto, e na parte superior, uma flecha acertando um coração que verte sangue. A capa do terceiro número difere na diagramação. A foto da jovem está em página inteira e o título da revista aparece grafado na parte inferior.

O miolo de Gigolette é em preto e branco. As três primeiras e as três últimas páginas são dedicadas apenas aos mais variados anúncios: vinagre, hotel, sabão, móveis, frutas, e vários outros produtos utilizados na época.

Quanto a mancha gráfica do cabeçalho observa-se que o título da revista está em caixa alta, escrito de forma côncava, de maneira que a primeira letra do título, o “G”, inicie, na forma convexa, a palavra ‘genero”. E A última letra do título, a letra “E”, passe a ser a última letra da palavra “Alegre”. Desta forma temos: Gigolette: gênero alegre, que é acrescido pela explicação grafada na parte superior: semanário illustrado.

O valor do número avulso era de 400 rs na capital e 500 rs para o resto do estado. A assinatura anual valia 15$000 e a semestral, 8$000.

A seguir, o texto do editorial, que muito carinhosamente transmite as informações pertinentes à publicação:

Apparece, hoje, alegre, expansiva, travessa, maliciosa e irriquieta, a Gigolette.
Vem para a pandega, para o maxixe, o bar, o cabaret, a alcova... Mas cuidado! Gigolette vem toda urgulhosa de si, envolta em sedas caras, e disposta, muito disposta, a se vender caríssima, ella vem como rapariga nova e faceira, freqüentar a alta roda, e apparelhada a deixar de cabeça torta os parvos que por ahi andam, ás tontas, de fraque fiado e dinheiro emprestado, a fazer de conquistadores a d. Juan.
Gigolette estará em toda parte, por mais difficultoso que seja o acesso. Nos salões, nos jardins, nos bondes, nos cinemas, nas ruas, nos pic-nics “providenciaes”, ella estará alerta, de ouvido attento, Kodac em punho, prompta a tomar nota, no seu canhenho [sic] de repórter, de tudo o que for vendo, percebendo, escutando...
E em que peze aos pudicos senhores, que por ahi campeam, hypocritamente, de rosário em punho e “bentinhos” ao pescoço, Gigolette representará o seu papel, na imprensa carioca.
Somos de espírito alegre, queremos fazer rir, sem a intenção que molesta. E qualquer poderá ler-nos sem sentir-se ferido no seu melindre e castidade.
A nossa bohemia brazileira, a bohemia ultra-eleante, é preciso notar, não possue, como as demais classes sociaes, o seu jornal.
Não lhe damos um jornal, mas offerecemos-lhe uma revista.
E essa, noticiosa, humorística, sem papas na língua, nem temor às... conveniencias.
Franca, sincera, alegre, maliciosa e jovial, como aqui vae.

O cabeçalho não divulga o nome dos editores. Os colaboradores assinam com pseudônimos. Uma pequena nota com o título ‘Expediente’ informa que “toda correspondencia da Gigolette deve ser dirigida à Praça dos Governadores n.6. Rogamos aos nossos illustres collaboradores e amigos mandarem todos os trabalhos com bastante antecedência do numero que desejarem ver publicadas suas produções”.

Os colaboradores assinam suas produções com os seguintes pseudônimos. Aimant de Coeur, Badejo, Frei Fidelis, Pacifico, Tragedia e Paulista.

Selecionamos das páginas de Gigolette um soneto assinado por Badejo.


Pomba sem fel

Ao Alfredo, em presença de Clarice,
a avozinha dizia: - Filho, aprende;
(não são cousas de velha nem pieguice)
a Roman mais gostosa é a que se fende!

A attenção da pequena o dicto prende
e, talvez, por ingênua meninice,
só mais tarde, no quarto, então, comprehende
que vovó não dissera uma tolice.

De namoro ferrado com o Alfredo,
foi logo procural-o ainda mais cedo
de que sempre o fizera outras manhans!

E, num tom de singela confidencia:
- Alfredo – vejam só quanta innocencia!...
As mulheres serão como as romans?!

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