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Kósmos: revista artística, scientifica e litteraria

por Maria Ione Caser da Costa
Foi em janeiro de 1904, na cidade do Rio de Janeiro, então Capital Federal, que foi lançado um periódico mensal, com diagramação bastante sofisticada. Era a revista Kósmos, acompanhada do subtítulo revista artística, scientifica e litteraria.

Naquele início de século, período que transitava entre o Império e a recém-nascida República, iniciava-se obras de modernização no Rio de Janeiro com a abertura da avenida Central, atual avenida Rio Branco. E, junto às modernizações que iam surgindo, o lançamento de Kósmos foi considerado um acontecimento marcante se nos basearmos na feitura e elegância de suas páginas, mostrando um diferencial com as revistas que circulavam à época, bem como com a representatividade de seus colaboradores.

Com uma média de 50 páginas cada exemplar, medindo 32cm x 26cm, foi impresso na Officina Typographica de J. Schmidt, situada na rua da Alfandega, 24. Em papel couché, apresentava ilustrações totalmente coloridas e de excelente qualidade. Seu conteúdo girava em torno das reportagens sobre eventos sociais da nata da sociedade, críticas teatrais e literária e manifestações artísticas, como crônicas, contos e poesias, tudo muito bem ilustrado.

O valor de venda valia 2$000 o número avulso, e para a assinatura anual era cobrado 20$000. Seu primeiro diretor foi Mário Behring e o editor proprietário foi Jorge Schmidt, que a partir do ano 2, número 4, publicado em abril de 1905 ficou sozinho na direção da revista, já que Behring precisou se ausentar:

Affazeres accumulados que lhe pediam e pedem a actividade em outras espheras de acção afastaram das lides desta revista Mario Behring, que lhe dera, durante dezesseis mezes o que podeia dar de esforço, de intelligencia e dedicação. Os seus escrúpulos de trabalhador sobrelevaram-se ás considerações oppostas á sua retirada e, mau grado as recordações que o prendiam a esta officina e os affectos que soube fazer nesse decurso de tempo, deixou este mez a direcção de Kósmos. [...]

A coleção segue ininterruptamente até abril de 1909 e com periodicidade mensal, quando encerra sua publicação. Foram sessenta e quatro fascículos totalmente ilustrados e todos disponíveis na Hemeroteca Digital.

O primeiro editorial, copiado a seguir, mostra uma pequena parcela de tudo que desejavam os editores com a publicação.

Apresentando ao publico o primeiro numero de nossa Revista, entendemos não haver necessidade de, obedecendo ao que preceituam antigos usos, traçar o programma de seus trabalhos, de sobra expressos o seu caracter, a sua índole, pelo nome que lhe demos.
Ha, entretanto, algo a dizer. Não tentaremos attrahir o favor publico com promessas, as mais das vezes falaciosas; contando conquistal-o, primeiro buscaremos merecel-o, até que factos se encarreguem de justificar os nossos propósitos.
Tomando por modelo as mais notáveis publicações ilustradas européas e norte-americanas, lutando com incríveis embaraços em meio como o nosso tão mal aparelhado para semelhantes empresas, coagidos a reunirem nossas oficinas os mais variados ramos das artes gráficas, que em mais adiantados centros constituem verdadeiras especialidades, queremos fazer das paginas de Kósmos, um artístico álbum das nossas belezas naturaes, dos primores de nossos artistas, propagando o seu conhecimento a outros pontos do paiz e do estrangeiro.
Alheios inteiramente ás lutas politicas, guardará nossa Revista, nesse terreno, que por sua natureza lhe é vedado, inteira neutralidade, registrando os acontecimentos políticos sem comtudo ultrapassar os limites da chronica.
Franqueamos suas paginas a todas as manifestações intellectuaes, esperando assim, modestamente, cooperar para o desenvolvimento e progresso de nossa terra; e nem poderá ser taxada de imodesta essa esperança, dadas as preclaras intelligencias que nos prometeram colaboração.
Á Imprensa brasileira, a cujo seio se acolhe, envia Kósmos as suas mais carinhosas saudações.
E agora, aos Mestres, a palavra.
Rio de Janeiro, 15 de Janeiro de 1904.

Muitos são os tópicos que poderiam aqui ser abordados sobre esta bela publicação. Escolhemos apenas um, que foi mencionado acima, comparando a criação da avenida Central ao nascimento de Kósmos. Olavo Bilac, assinando com o pseudônimo O. B. era o responsável pelas crônicas, divulgadas mensalmente, na revista. Mais de uma vez ele escreve sobre as mudanças provocadas pelas obras. Na terceira crônica, publicada em março de 1904, Bilac finaliza enaltecendo os novos tempos, numa despedida a cidade colonial que fica para trás.

Ha poucos dias, as picaretas, entoando um hymno jubiloso, iniciam os trabalhos da construcção da Avenida Central, pondo abaixo as primeiras casas condemnadas. Bem andou o governo, dando um caracter solemne e festivo á inauguração d’esses trabalhos. Nem se comprehendia que não fosse um dia de regosijo o dia em que começámos acaminhar para a rehabilitação.
No aluir das paredes, no ruirdas pedras, no esfarelar do barro, havia um longo gemido. Era o gemido soturno e lamentoso do Passado, do Atrazo, do Opprobio. A cidade colonial, immunda, retrógada, emperrada nas suas velhas tradicções, estava soluçando no soluçar daquelles apodrecidos matteriaes que desabavam. Mas o hymno claro das picaretas abafava esse protesto impotente.
Com que alegria cantavam ellas, - as picaretas regeneradoras! E como as almas dos que ali estavam comprehendiam bem o que ellas diziam, no seu clamor incessante e rythmico, celebrando a victoria da hygiene, do bom gosto e da arte!

Extensa é a relação dos colaboradores. Citaremos apenas alguns: Afonso Arinos (1868-1916), Alberto de Oliveira, Artur Azevedo (1855-1908), Capistrano de Abreu (1853-1927), Coelho Neto (1864-1934), Euclides da Cunha (1866-1909), Felix Pacheco, Francisco Braga, Gonzaga Duque, João Ribeiro, João do Rio, José Veríssimo, Lauro Muller, Lima Campos, Manuel Bonfim, Medeiros e Albuquerque, Olavo Bilac, Oliveira Lima, Raul Pederneiras e Vieira Fazenda (1874-1917).

Os principais encarregados pelas ilustrações e fotos apresentadas nas páginas de Kósmos foram F. Soucaseaux (1856-1904), Guilherme Gainsly (1843-1928), Marc Ferrez (1843-1923) e Rodolfo Bernardelli (1852-1931).

Não finalizaremos este artigo com um poema, como se tem preferido fazer com os outros títulos tratados nesse dossiê. Optamos por apresentar endereço eletrônico para posterior consulta de dois artigos publicados em Kósmos: a crônica de estreia de Olavo Bilac, onde ele faz um paralelo entre a morte do livro a partir da proliferação de publicações periódicas. Prevê que o “jornal do futuro, - para attender á pressa, á anciedade, á exigência furiosa de informações completas, instantâneas e multiplicadas, - seja um jornal fallado, e illustrado com projecções animatographicas, dando, a um só tempo, a impressão auditiva e visual dos acontecimentos” - http://memoria.bn.br/DocReader/146420/7; e o artigo assinado por Aurélio Lopes, no terceiro número de Kósmos, em que o autor comenta os recém lançados ex-libris e o emblema da Biblioteca Nacional. http://memoria.bn.br/DocReader/146420/118. Visitem.

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