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O Cornimboque

por Maria Ione Caser da Costa

O Cornimboque foi uma publicação quinzenal editada no Rio de Janeiro pela primeira vez em outubro de 1881.  O número que abre a coleção da Biblioteca Nacional  é referente a dois dias do mês: domingo 9 e segunda-feira, 10. O escritório e redação estavam localizados à rua do Hospício, 127, onde também funcionava a Typographia do Cornimboque. Era vendido ao preço de 40 réis o exemplar avulso.


A Biblioteca Nacional possui apenas dois exemplares de O Corninboque. O segundo foi publicado também no mês de outubro, com as datas de domingo 23 e segunda-feira, 24. Neste, aparece como subtítulo: periódico pândego e interessante.


Cornimboque significa ponta de chifre que se usava para guardar rapé, de acordo com o Dicionário Aulete Digital. E apesar de não ter sido encontrada nos dois exemplares nenhuma menção a nomes de editores ou colaboradores, acredita-se que eles se inspiraram na figura do cornimboque para batizar o periódico, pois assim iniciam o primeiro editorial: ‘Caros leitores. O Cornimboque vos apresenta, simples, fresco e a meno [sic]; podeis sorver vossa pitada que encontrareis sempre agradável o nosso tabaco; isso vos affirmo.”


Publicado em duas colunas, separadas por um fio simples (exceção para a primeira página do primeiro exemplar, que se apresentou em três colunas), seu conteúdo é recheado de piadas e galhofas, que podem ser observado até no modo como o expediente é composto, com frases dispostas uma abaixo da outra na coluna da esquerda: “recebe-se todos artigos pilhéricos que não cheirem a immoralidades. Recebe-se qualquer annuncio por preço modico. Não se aceita assignaturas, para não haver duvida.”


O Cornimboque publica poesias, o registro das publicações recebidas em seu escritório, pequenos contos em tom jocoso, e piadas que denominam Cornimbocadas. Dentre os poemas publicados em suas páginas, destacamos a título de ilustração, um excerto da poesia Eu vi. Como mencionado anteriormente não existe em suas páginas alusão a nenhuma autoria, entretanto, em pesquisa realizada na web, descobrimos ser este poema de Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882), que recebeu outro título naquela versão: “Não sei (Escrito no álbum de uma Senhora)”.


 

Eu vi


(Conto poético)


I

Eu vi, não invento, nem foi illusão,
Eu vi um mancebo, que ardente nutria
Em flammas odóras sagrada poezia,
Passando tranquillo na terrea mansão,
Sorriu-se para a vida, viveu e sonhou
Até que o momento de amar lhe chegou.

Um dia; era um dia de encanto e de amor;
O sitio era bello, silencio reinava
E a onda travessa na praia brincava,
E as auras trazião das flôres o odôr
Sorria-se a aurora no seu despontar
E o jovem mancebo vagava a scismar!

Vagava... mas subito estatico pára,
Embebe os eus olhos em virgem formosa,
Que então lhe parece mais linda que as rosas
Mais bellas, das bellas, que em sonhos formara;
E quando da virgem seus olhos tirou,
Escravo perdido por ella se achou.

Ano 1,n.1 (9 e 10 out 1881)

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