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O Grillo: periodico caustico, noticioso e humorístico

Lançado em Recife, capital pernambucana, no dia 03 de dezembro de 1901, O Grillo: periódico caustico, noticioso e humorístico tinha como meta, fazer rir aos seus leitores. Cáustico tem como sinônimos irritante, mordaz e satírico, segundo o Dicio: Dicionário Online de Português. Então, nesse sentido, o periódico pretendeu fazer rir, mas com um determinado tom mordaz e satírico.

Propriedade de Braz Pinote e Felix Patife teve como diretores Gil Minhoca e Braz Filhote. Pseudônimos também encontrados em outros periódicos pernambucanos, que, no atual estágio de nossas pesquisas, não sabemos se usados pelas mesmas pessoas físicas.

A coleção de O Grillo é composta por cinco exemplares, sempre na medida de 33cm x 21 cm. Os três primeiros exemplares, publicados semanalmente, contém quatro páginas cada. Com o intervalo de uma semana sem publicar, temos os dois últimos, números 1 e 2 do segundo ano, lançados respectivamente em 10 e 17 de janeiro de 1902, e que possuem seis páginas cada. Nestes dois últimos o primeiro proprietário foi substituído por Thomaz Caminha.

O cabeçalho é localizado sempre na parte superior das primeiras páginas de cada exemplar. O título é grafado com letras grandes, em caixa alta e bem negritadas. Entremeando as letras “O” e “G” que compõem o título, vê-se uma pena de ave desenhada em posição concorrente com uma caneta tinteiro. No ponto de intersecção, isto é, o ponto comum dos dois desenhos, a figura de um grilo.

Ainda no cabeçalho, separado por fios duplos, duas frases que se repetem em todos os exemplares: “Rir que o riso não leva sello” e “E deixa andar... Corra o marfim”. Logo abaixo, a matéria publicada na capa da edição, fogindo aos padrões pactuados como matéria de O Grillo, que é, fazer rir, os editores prestam uma homenagem a “Santos Dumont, O conquistador do ar”. Com um desenho zincográfico do busto de Santos Dumont, assinado por B. Telles (Benevenuto Telles), seguido do texto:

O Grillo, surgindo, hoje perpetua tambem o nome sympathisado de Santos Dumont que tem algo de sublime e de maravilhoso, nome que traduz por assim dizer a solução de um problema até hontem irresoluvel, porém agora resolvido.
A degiribilidade dos balões deixou de ser uma utopia, para ser uma realidade incontestável.
O nome aureolado de Santos Dumont voa, triumphantemente impellido pelos quatro ventos da Fama.
O Grillo caustico-trocista como é, despe agora o roupão desbragado da Pilheria e envergando saltitante a casaca aristocratica das frandes solemnidades felicita delirantemente ao intrépido areonauta enviando-lhe pelo fio electro do Desejo um formidaloso amplexo.
O Grillo, portanto, honra a sua primeira pagina com o retrato de Santos Dumont, o primus-inter-pares dos areonautas.

Os desenhos publicados em O Grillo foram “trabalhos zincographicos” - técnica de impressão litográfica, que utiliza uma placa de zinco como matriz. Eram executados na redação, e vendidos “pela quarta parte de seu valor”, a quem se interessar, segundo nota na página dois, terceira coluna do primeiro exemplar.

Lê-se no Expediente, também publicado na pagina dois, o valor das assinaturas: 2$000 por um trimestre e 4$000 um semestre; o preço avulso era de $100 e para os números atrasados cobravam $200. Também no expediente, aparece a informação: “toda correspondencia póde ser dirigida em carta fechada á Rua da Imperatriz n. 19”.

Depois do expediente, aparece o Programa da publicação. Escrito em linguagem galhofeira, quase nonsense, que tem como título o nome da publicação:

ockquote>O nosso programma?!! Exigem, (ou é pulha) esta exigencia. Não! Não podemos apresentar o nosso programma. Porque? Porque! La vae obra... O nosso pequeno e innocente O Grillo, não tem programma. Procura sómente por meio da galhofa, (cheia de espírito) e por meio de uma linguagem moral, fazer o riso estalar phrenetico e argentino dos labios (de assucar) de nossas gentis leitoras e das beiçolas dos nossos leitores. Eis ahi, portanto, a base fundamentá do artigo da historia, (como diz o nosso collega Anastacio). Rir, que o riso não paga sello. Deixar andar, corra o marfim, e no mais... Se finit La comchamblancia.

Todos os colaboradores assinam com pseudônimos. De alguns foi possível descobrir o nome de batismo. Entre uns e outros, são estes eles: Braz Filhote, Braz Pinote, Diabrete, Frei Piolho, Furado, Gil e Filhote, Gil Minhóca, Grillo Teso, José Paixão, Juca Patusco, Juca Roche, K. Millo, K. Turra, Lobo Ceguinho, Pafuncio Peixoto, Roberto do Diabo (Valfrido Leonardo Pereira e/ou Esdras Leonan Alves de Farias), Romeo Pimpão, S. M., Satan Marôto, Tenente Collete Electrico, Tenente Mocinha, Thomaz Caminha (Carlos Martins Torres), Trolololó, Y. Bohemio e Zamparino (Artur Benício de Araujo Lima) dentre outros.

O último exemplar publicado de O Grillo foi em 17 de janeiro de 1902. É o quinto da coleção e recebeu a designação numérica de Ano 2, n.2. Em 27 de fevereiro de 1902, portanto, pouco mais de um mês depois, vem a público um outro periódico, O Besouro: illustrado e humorístico. O primeiro exemplar com este título foi o Ano 2, número 6, e se anuncia como a continuação de O Grillo: “Charos leitores e gentilíssimas leitoras. O BESOURO de hoje não é mais nem menos do que o Grillo de hontem, endiabrado e livre que fez muito coió andar com os fundos nas mãos.”. Sobre ele, poderemos saber um pouco mais também neste dossiê.

A título de ilustração e para animar o leitor a visitar o periódico, apresentamos abaixo um dos muitos poemas publicados em O Grillo. A nossa musa foi publicado na página 6 do último exemplar da coleção, na autodenominada “página artística”. Assonado por Gil e Filhote vem acompanhado do desenho de uma mulher de cabelos longos, vestida de maiô e calçada de botas de cano alto. Ambos ocupam a página inteira.


A nossa musa

Eil-a que surge risonha
A nossa musa faceira
Mimosa, linda e brejeira,
A deusa da inspiração...
Mestra gentil do lyrismo,
As vezes é moça seria,
Outras vezes na pilheria
É deusa da Tentação!

Cabellos soltos aos ventos
Do amor sentindo o látego
Ella gosta do “chamego”
Nas “conchamblancias” do goso.
Tem nas veias sangue quente
É sensual e fogosa,
Nos sonhos: -deliciosa
-Um perigo perigoso...

Deitor não faças asneiras,
Vendo este corpo carnudo
Do amor, do goso e de tudo
Que excita a volúpia louca
Contempla leitor de longe,
Isto apenas é gravura
Fazer de conta em figura
Deixa sempre agua na bocca...

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