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O Kosmos: orgam do Gremio Dramatico e Recreativo “Kosmos”

por Maria Ione Caser da Costa
O Kosmos: orgam do Gremio Dramatico e Recreativo Kosmos foi um periódico relacionado à historiografia da imprensa negra. Convencionou-se chamar imprensa negra aquela escrita por negros, para os negros.

Editado em São Paulo, o primeiro exemplar deve ter sido lançado em junho de 1922. A coleção existente na Biblioteca Nacional inicia com o número 3, que foi publicado no mês de agosto daquele ano. Por ser um mensário, podemos definir o mês de junho como a data de lançamento.
A coleção da Biblioteca Nacional não está completa. Além dos dois primeiros exemplares, faltam ainda os números 13 até o 19, que correspondem aos meses de junho a dezembro de 1923.

O conteúdo da publicação, de modo geral, estava pautado em notícias com foco na recreação, informação e entretenimento do público leitor. Noticiavam as festas, nascimentos, falecimentos, casamentos, bailes, todos eventos relacionados à comunidade negra. O periódico publicado pelo Clube do Gremio Dramático e Recreativo Kosmos tinha a intenção de promover a integração dos negros na sociedade, instruindo-os e incentivando-os com boas leituras e bons exemplos de comportamento.

O Gremio Recreativo e Dramatico Kosmos foi fundado em 15 de novembro de 1908, e os seus sócios organizaram o periódico Kosmos, como pode ser confirmado a seguir.

15 de Novembro de 1908. Dia cheio de encantos e esperança luminosa. Respandecia o sol, e seus raios luminosos guiava um grupo de moços, há 14 annos, para, em reunião, levantar a ideia da formação de uma sociedade que, levada a effeito, tomou o nome de Gremio Recreativo Dramatico “Kosmos”, que em 1910, por occasião da reforma de seus estatutos, passou por motivo de ordema chamar-se Gremio Dramatico e Recreativo “Kosmos”. Ha 14 annos, existiam as afamadas sociedades, “Paraiso”, “15 de Novembro”, ainda existente e “18 de Agosto”, sociedades estas que, nesse tempo eram acatadas e respeitadas, pela bôa ordem e moral que então impunham os seus diretores, orgulhosos sempre em defender os nomes dessas sociedades.
Devido a questões político-sociaes, um grupo desligando-se do “18 de Agosto”, fundou o nosso “Kosmos”, que do lado de suas congeneres, veio contribuir para a glorificação de um nome, que até hoje (salvo costumes dos tempos) tem-se mantido impoluta no convívio associativo dos homens de cor de São Paulo, adquirindo não só amizade com outras da capital, como também de Jundiahy e Campinas, sendo que em 1912, existia o convívio social patrocinado pelo então presidente o senhor Frederico Baptista de Souza, com as sociedades já descriminadad e mais tarde com outras, patrocinadas pelo sempre lembrado, presidente Joaquim Cambará, e que teve sua repercussão nas directorias seguintes, demonstrando assim que a paz, a ordem e a harmonia deve existir entre as sociedades dos homens de Côr.

O Clube Kosmos funcionou no número 116 da Rua Vergueiro, de setembro de 1922 até fevereiro de 1924, e, a partir do mês seguinte, foi transferido para a rua Florencio de Abreu, 45.

Na edição de setembro de 1922, o periódico prestou uma homenagem ao centenário da Independência do Brasil, ressaltando que “é memorável o dia hoje em que se celebra a liberdade de um povo e de uma nação, e que penetrando no Pantheon da gloria, marcha victorioso para senda do progresso, da grandeza e da civilização.”

No exemplar publicado em 21 de fevereiro de 1923, e nos números subsequentes, o subtítulo de Kosmos é alterado para orgam official do Grêmio Dramático e Recreativo Kosmos.

Os responsáveis pela edição de Kosmos eram Abilio Rodrigues como redator, Joaquim Domingues era o gerente e José M. M. Baptista, o secretário. A partir de fevereiro de 1923, a redação ficou a cargo da diretoria do grêmio, cuja composição variou ao longo dos anos de publicação do periódico. Os presidentes em 1923, 1924 e 1925 foram, respectivamente, Frederico Baptista de Souza, José Martinho de Moura Baptista e Frederico Baptista de Souza.

Não apresentou ilustrações e cada exemplar era formado com quatro páginas.

Vários foram os colaboradores: Adolpho Lima, Archimiro de Camargo, Benedicto Florêncio, Davi Rodolfo de Castro, Deocleciano Nascimento, Durvalina Batista, Euzébio, Fabio Luz, Frederico Baptista de Souza, Guerra Junqueiro, J. M. Latino Coelho, José Augusto Ferraz, Luis Guimarães, M. Teixeira do Carvalho, Márcio Franco de Moura, Odith Freitas, Oliveira, Pedro Ribeiro Vianna, Perikito e Theophilo Fortunato de Camargo.

Para ilustrar, o soneto de Archimiro de Camargo, publicado no número sete, de dezembro de 1922, na página dois.


O Dinheiro

Com fóros de nobresa decadente,
Misturada ao embuste de um cigano,
O dinheiro foi feito omnipotente
E abaixo dos céus, só elle é soberano.

Perverte os sentimentos facilmente,
Até a um rei elle transmuda num tyranno
E, açulando-o pertinaz e insistente,
Faz jorrar aos cachões o sangue humano!

E é inçante em seu poder que airoso e mudo,
Vai transformando ou corrompendo tudo,
(Triste fado!) a passar de mão em mão...

E assim, entre o palácio e a espelunca,
É esse damnado que não pára nunca,
Que torna um homem cynico ou ladrão!...

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