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O Symbolo do Apostolado Litterario

por Maria Ione Caser da Costa
Lançado na cidade de Baturité, Província do Ceará, no dia 25 de março de 1896, a publicação O Symbolo recebeu como subtítulo um complemento que identificava sua procedência: do Apostolado Litterario.

Foi impresso pela Typographia d’O Symbolo, que estava localizada na Praça do Senador Pompeu. Local para onde deveriam ser encaminhadas todas as correspondências. Uma chamada na última página, grafada verticalmente, informava que na Typographia d’O Symbolo “imprime-se todo e qualquer trabalho concernente a arte typographica”.

Com periodicidade pretendida quinzenal, não se sabe se conseguiu seu intuito, pois somente este exemplar pode ser consultado na Hemeroteca Digital do Brasil. No catálogo do acervo de microfilme da Biblioteca Nacional está a informação de que a publicação teve continuidade até 05 de outubro daquele ano.

O Symbolo não apresentou preço de venda avulsa, apenas o valor das assinaturas, que valiam 2$000 para um trimestre e 3$000 para o período semestral.

A totalidade dos textos publicados nas páginas de O Symbolo diz respeito à área musical. É apresentado um Resumo da história da música que ocupa duas páginas de um total das quatro que completam o fascículo. Entretanto o editorial não faz menção à música. Ele foca no evento comemorado no dia 25 de março, data de lançamento do periódico. Nesse dia, no ano de 1884, o Ceará proclamou a abolição dos escravos, portanto, quatro anos antes do restante do país. A data ficou conhecida como Data Magna do Ceará, e, a partir do ano de 2013 passou a ser feriado naquele estado.

Iniciando com letra capitular, temos o seguinte editorial:

Modesto como nosso livro, o nosso pequeno jornal se enfileira na arena da imprensa como arma luminosa da cruzada bendita, a que de bôa vontade nos dedicamos.
Attendendo a maguinimidade de nosso fim social quizemos ter um berço honroso e encomtramol-o no 25 de Março, áurea data da Patria Cearense.
Foi com efeito hoje, pode-se diser, que este povo fez seu apparecimento nos estádios das liberdades humanas, a nobilitante e máscula affirmação de sua individualidade livre e viril!
Até então vivia no obscurantismo de seu martyrio constante pela inconstancia de seu clima; nos escombros de suas agonias intermittentes, que mais acrysolavam sua alma de grande e de predestinado. [...]

Continua o editor, num longo texto, nomeando e enaltecendo algumas pessoas que durante sua trajetória de vida, se dedicaram a lutar pelos interesses de uma causa que até então, era incogitável. Pessoas abnegadas e humanas que buscavam um bem comum para todos de sua Pátria. E assim é finalizado o editorial:

E o Ceará foi pela soberana vontade de seus filhos, - Baptistas dessas gloriosas, incruentas e céleres conquistas que começaram nivelando a Pátria e terminaram egualando as Américas.
Assim pois, commemmorando essa data augusta e orgulhando-nos como vergônteas desse povo apotheosado – vimos hoje ante elle genuflexo psalmodiar:
- Povo, as lagrimas de humilhação da raça escrava que, a aurora de hoje, transformastes em diamantinas lagrimas de gratidão, cahiram ao solo fecundo de nossos corações e brotaram as flores aromaes da fé que hoje nos congrega e nos encoraja. Ascenderam como uma revoada de borboletas iriaes aos páranos do Ceo e brilham como estrellas, como constellações, que nos amorteiam a terra da promissão que repousa na Instrucção.
A liberdade é um facto que vos enobrece e pela instrucção far-se-á um direito que vos immortalisará, porqie só por elle a Deusa poderá ser comprehendida para podêr ser amada, no verbo eloqüente de Pascal.
A liberdade foi uma conquista que vos enalteceu e será um bem perdurável, que nos honrará, quando a Instrucção illuminar cada cérebro e a Educação perfumar cada coração.
É este o nosso desideratum.
Alentai-nos e seremos fortes; protegei-nos e seremos invencíveis.

Sem nome dos editores e os colaboradores utilizando pseudônimos, temos Boanarges, Cephas e L. M. Smido como personagens que imprimiram seus textos nas páginas de O Symbolo.

E é de Boanerges o poema que selecionamos abaixo.


A***

Como o idólatra á imagem
Beija com todo fervor,
De amor na cega voragem
Beijo à flor que deu-me a Flor...
E talvez riam de mim
Por me ver beijal-a assim!

Não riam, que amor tem leis,
Caprichos TAM esquesitos,
Que bem parecem – malditos!
Que foi Satan quem os fez...
Ninguem pode resistir,
Ou mesmo delles fugir!

E já que eu não posso à Flor
Que a flor me deu oscular,
Quero, em delírio de amor,
Beijando a flor expirar;
Riam embora de mim,
Por querer morrer assim! ...

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