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A Grinalda: periodico litterario e recreativo dedicado ao bello sexo

por Maria Ione Caser da Costa
Foi no dia 17 de março de 1869, na cidade Cachoeira, pertencente à Provícia da Bahia, que surgiu A Grinalda: periodico litterario e recreativo dedicado ao bello sexo.

Inicialmente impresso na Tipografia do Crítico, A Grinalda teve como redator gerente, Veridiano Tavares da Gama. Com o decorrer dos meses outras duas tipografias também puderam colaborar na impressão: a Typographia Paraguassu e a Typographia da Grinalda.

Atualmente, a cidade de Cachoeira, que fica no recôncavo baiano, é considerada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional monumento nacional e, desde 2007, todos os anos, no dia 25 de junho a cidade se eleva à sede do Governo da Bahia, tornando-se a capital do estado. A mudança ocorre para relembrar o dia em que moradores locais deram início as lutas pela Independência do Brasil, finalizadas no dia 2 de julho.

O redator-gerente de A Grinalda se dirigiu aos leitores em seu primeiro editorial, num tom gentil e amável, confirmando sua preferência em agradar ao público feminino.

Modesta, como o seu nome, A GRINALDA, que hoje se assenta no soalheiro da imprensa, não pretende os hurras da saudação, no toast da intelligencia.
Sua ambição é mais singella, mais accommodada aos minguados recursos das intelligencias juvenis e pouco allumiadas, que a vam dirigir.
O lindo botão de rosa, de pequena bonita e travessa, que antes de o dar, lhe poz cem veses os nacarados lábios, de preferência aos florões que engrinaldão a fronte dos sábios no Pantheon dos gênios, a leva a reluctar nos prélios litterarios. [...]
Visto isto, fica subentendido que A GRINALDA, é a protegida das moças, o que quer diser, a protegida da belesa, da graça, da elegancia e do verdadeiro espírito; pelo que, fica vedado a qualquer profano e grosseirão amarrotar com suas mãos calosas, este – seu mimo d’ellas, sob pena de perder as boas graças de todos os anjinhos terrestres, e, exclusivamente os nunca aprecidos favores de la de’esse. [...]
O redactor-gerente, d’este pequeno jornal, é um artista desaccompanhado de alheia protecção, um pobre typographo, sem outro recurso mais, do que a sua arte, de todas, a mais nobre e humanitária; tomae-o sob vossa guarda, protegei-o, amparai-o.
A caridosa protecção, minhas queridas leitoras, é uma letra saccada sobre a generosidade do Creador, que elle acceita para pagar no Valle de Josaphal, n’aquelle famoso dia em que se hão de ajustar tantas contas atrasadas.

O subtítulo grafado no primeiro exemplar permanece até o número 11, publicado em outubro daquele ano. O exemplar seguinte recebe o subtítulo de periódico litterario, recreativo e commercial, continuando desta forma até o número 20, de março de 1870.

A Biblioteca Nacional não possui o número 21. Do vigésimo segundo, publicado em 30 de março, até o último, recebeu o subtítulo de órgão democrático, noticioso, litterario e commercial. Estas sutis modificações no subtítulo demonstram as mudanças ocorridas quanto à natureza da publicação e ao público a que se destinava.

A mudança no subtítulo corrobora com a mudança editorial, passando a tratar de temas mais amplos. A literatura, foco inicial da publicação, cede o lugar à política, priorizando o governo do Imperador Pedro II.

Sua periodicidade também variou entre semanal ou mais de uma vez por semana, como informa uma nota na última página dos exemplares. Mas, alguns problemas ocorridos podem ter parecido, “as queridas leitoras”, que A Grinalda houvesse “desaparecido da arena jornalística”. Alguns hiatos são encontrados em sua periodicidade, até que em 17 de julho de 1870, ela deixa de circular.

Colaboraram nas páginas de A Grinalda: Amaral Tavares, Carvalho Sobrinho (1838-1899), Casemiro de Abreu (1839-1860), Furtado d’Antas, J. L. de Medeiros, J. M., M. Pinheiro Chagas, P. Regis, Visconde de Sapucahy dentre outros.

A título de ilustração, selecionamos o poema Jurity, de Casemiro de Abreu, publicado na página 3 do primeiro exemplar.


Jurity

Na minha terra, no bolir do mato,
A jurity suspira;
E como o arrulo dos gentis amores,
São os meus cantos de secretas dores
No chorar da Lyra,

De tarde a pomba vem gemer sentida
Á beira do caminho;
- Talvez perdida na floresta ingente –
A triste geme n’essa voz plangente
Saudades do seu ninho.

Sou como a pomba e como as voses d’ella
É triste o meu cantar;
- Flor dos trópicos – cá na Europa fria
Eu definho chorando noite e dia
Saudades do meu lar.

A jurity suspira sobre as folhas seccas
Seu canto de saudade;
Hymno d’angustia, fervido lamento,
Um poema de amor e sentimento
Um gruto de orphandade!

Depois... o caçador chega cantando,
Á pomba faz o tiro...
A bala acerta e ella cahe de bruços,
E a voz lhe morre nos gentis soluços,
No final suspiro.

E como o caçador, a morte em breve
Levar-me-ha comsigo;
E descuidado, no sorrir da vida,
Irei sosinho, a voz desfallecida,
Dormir no meu jasigo.

E – morta – a pomba nunca mais suspira
A beira da caminho;
E como a juruty, - longe dos lares –
Nunca mais chorarei nos meus cantares
Saudades do meu ninho.

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