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Apocalipse

por Maria Ione Caser da Costa
m 17 de setembro de 1927 surgia no Rio de Janeiro a revista Apocalipse, sob a direção de Zolachio Diniz.

A Biblioteca Nacional possui dois exemplares desta publicação, o primeiro e o segundo. Este último publicado em 30 de setembro daquele ano. Os mesmos ainda não foram digitalizados, e só podem ser consultados na Coordenadoria de Publicações Seriadas.

O primeiro editorial, com o título “Apocalipse: senso do mysterio e do espanto!”, inicia com letra capitular envolta num adorno, e no texto os editores discorrem sobre o mistério que o nome da publicação traduz, comparando-o ao espanto que pode ser encontrado nas páginas da publicação através de “suas pennas” ou das suas “kodacks”.

Apocalipse é um nome bonito.
É uma alegoria.
Uma só?
Não.
Tambem uma serie de alegorias fantásticas.
Onde buscal-as?
Na vida actual. Na nebulosidade dos dias que correm, nos quaes os homens, como nos tempos de babel, tudo fazem por não se comprehenderem...
Trará APOCALIPSE consigo o mysterio e o espanto,
O mysterio de que?
De cada uma das verdades da vida contemporânea, que são impenetaveis para o bom senso do homem vulgar e de impõem como obra da contingência dos tempos.
O espanto sobre o que?
Sobre a celeuma em que a existência decorre, nos nossos dias vertiginosos, como as águas do Amazonas ou do são Francisco, sobre os pedroiços de ríspidas cachoeiras...
Haveremos, como a personagem de Camillo, depois de percorrer as avenidas e os teas e os footings, depois de torturar os charlestons, e os black-botons e os tangos, depois de confundir as almas e as vestes e os cabellos, contar-lhes os mysterios da paixão e os infernos do ciúme...
E, daremos ás nossas kodacks para ferocidade e furor, que de APOCALIPSE diria camões que a vivos medo e mortos causa espanto...
Neste peregrinar de nossa hora confusa de civilisação fantástica, a fantasia do mysterio e do espanto se abrirá em flor, para tudo e para todos, nas paginas quinzenarias de APOCALIPSE.

A página seguinte ao editorial, que funciona como página de rosto, apresenta o título acompanhado do subtítulo: Apocalipse: quinzenario dos dias de hoje. Além do nome do diretor, inclui os nomes do secretário, Nelson Martins e do gerente, J. Wanderley. No segundo exemplar, Nelson Martins aparece como redator principal e como secretários os nomes de Pedro Gratacós e João Guimarães.

Nada foi encontrado na web ou mesmo em outras fontes de pesquisa sobre esta publicação.
As capas dos dois exemplares são coloridas, e a primeira traz a assinatura do caricaturista Alvarus (Álvaro Cotrim, 1904-1985), que também colabora com desenhos nas páginas da revista. Além das caricaturas, ilustram as páginas fotos de instantâneos e retratos com dedicatórias.
Nas matérias são encontradas notícias de teatro, das fitas cinematográficas, alguns contos, poemas e as “últimas da moda”.

Cada fascículo possui 38 páginas, que não apresentam numeração. O tipo de papel das páginas internas alterna entre papel couché e papel jornal, e as ilustrações são em preto e branco.
Com uma tiragem de dez mil exemplares, o número avulso era vendido por 1$000. A assinatura anual valia 25$000 e o número atrasado era vendido por 1$500.

Um artigo anônimo publicado no exemplar número um mereceu destaque. Seu título: “Origem dos periódicos”. Segue o texto:

Os gaulezes surprehendiam os viajantes nas estradas, e não os deixavam continuar o seu caminho sem estes terem satisfeito a sua curiosidade, contando-lhes o que se passava nas nações extrangeiras.
As novidades do dia excitavam, vivamente o interesse dos gregos.
Em Atenas, as pessoas bem educadas, ou aquellas que por taes se davam, reuniam-se no Portico, perto do Mercado, para conversarem sobre assumptos de moral, e sobre os negócios públicos.
Congregavam-se outros nas lojas dos ourives, barbeiros, etc., para contarem historias e anecdotas políticas e fazerem a chronica escandalosa do dia.
A maledicência e a paixão que tinham para toda a casta de noticias, eram os fedeitos característicos dos athenienses.
Muitos historiadores, Aristophantes e Plutarcho, entre outros, lhes lançam em rosto, o não se occuparem senão com guerras, desastres, victorias, e divertirem-se continuamente nas ruas e nas paredes das casas, traçando planos de batalhas e cartas geographicas.
Em Roma, o povo colhia também com avidez as noticias do dia.
Os jornaes, chamados acta diurna tratavam dos acontecimentos que tinham logar no dia antecedente, taes como sentenças dos tribunaes, assembléas populares, nascimentos, casamentos, divórcios e mortes de pessoas de certa responsabilidade.
Multiplicavam-se as copias desses escriptos, liam-se nas reuniões, nas províncias, e mesmo nos exércitos; com o andar dos tempos deu-se-lhe tanto apreço, que historiadores, aos quaes se não póde recusar o titulo de clássicos, não hesitaram em consultar esses archivos.
É geralmente sabido que foi Julio Cezar quem primeiro ordenou a publicação desses diários.

Na lista dos colaboradores são encontrados os nomes de Almachio Diniz, Angela Vargas, Antonio Lamego, Fabio Luz, João Guimarães, Maria Augusta Bittencourt, Relzio Silva e poesias de Giselia Nina, M.O, Telles de Meirelles, Orvacio Santa Marina, Pedro Gratacos, S. Lopes Fonseca e Telles de Meirelles.

A lista de colaboradores relacionada acima inclui o nome João Guimarães. Uma dúvida surgiu quando, ao procurar informações na web, as respostas direcionavam para João Guimarães Rosa (1908-1967). O site da Academia Brasileira de Letras esclarece que a estreia literária de Guimarães Rosa ocorreu em 1929. Apocalipse é de 1927. Seria a mesma pessoa? Não sabemos a resposta. Entramos em contato com uma professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), especialista em Guimarães Rosa, que se prontificou a ajudar, mas, segundo ela, não foi possível afirmar. Eis um tema aberto à pesquisa.

Deixaremos, a seguir, um poema de Pedro Gratacos com o título de O Mar, publicado no primeiro exemplar, e dedicado “ao meu amigo João Guimarães”.


O Mar

O mar na sua eterna inconsciência,
Regougava impetuoso e altisonante,
Tentando derrotar com a sua hercúlea potencia,
Tudo o que via ante o seu olhar flammante!

Aquelle marulhar insano solfejava no espaço,
Surdo, ríspido na cólera ardente que o opprimia,
Ora parando como que temendo o prostrador cansaço
Ora avançando de novo, num esto de selvageria!

E os vagalhões portentosos na incansável lucta,
Debatiam-se contra si mesmo num mouco clamor,
E encapelando-se no ar numa agonia abrupta,
Espargiam-se na água, talvez fenecidos pela dor!

E a rocha esmeraldina, inerte no oceano,
Contemplava immobil a ira do seu antagonista,
Rindo no intimo da força trágica do tyranno,
Que nunca a conseguira vencer, na gigantesca pista!

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