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O Olho: semanário humorístico: propriedade de moços sérios

por Maria Ione Caser da Costa
O periódico O Olho foi lançado em Vitória, capital do Espírito Santo no dia primeiro de setembro de 1912, um domingo. O subtítulo semanário humorístico e a informação que vem a seguir ao subtítulo, propriedade de moços sérios, já apontam para o víeis que seus autores pretendem tomar: divertir os leitores. Foi impresso nas oficinas de O Diario.

O Olho era vendido por $100, não trazendo informação ou valor para assinaturas. As correspondências e colaborações deveriam ser encaminhadas para a rua Dois de Dezembro, numero 4. O expediente, com o título “Negocios serios”, trazia outras informações: “Tendo a redação responsabilidade, os originaes que não estivessem de accordo com o pensar cá de casa vão direitinho para o lixo, sem direito a reclamações”, e “ultimo e mais importante – os annuncios são pagos adiantadamente e segundo o que fôr estipulado”.

Na Biblioteca Nacional existem sete exemplares, do primeiro ao quanto número, os números 6, 7 e o 15. Este último editado em 8 de dezembro daquele ano.

Cada fascículo mede 43 x 32 cm. As páginas foram diagramadas em quatro colunas divididas por um fio simples e não apresentam ilustrações.

As únicas ilustrações aparecem na capa, no alto da página decorando o título. Posicionado à esquerda está grafado o nome da publicação, em letras cursivas. À direita, o desenho de um grande olho aberto, dele saindo traços como os raios solares, que nos dão a impressão de que o “olho” tudo vê.

Os redatores de O Olho foram Aristóteles da Silva Santos, Urbano Xavier, Oskar Araujo e Luiz da Fraga Santos. A coleção da Biblioteca não está completa. Pesquisas informam que a publicação findou com o número 30 em agosto de 1913, num formato menor e com mais páginas. Mudança que aconteceu a partir de janeiro de 1913.

Com o título O Fundo, sem assinatura, O Olho se apresenta no editorial:

A praxe! Neste paiz de papelorios, de cavações, de bacharelus, n’este paiz essencialmente agrícola, enfim, a praxe é uma grande cousa, é mesmo uma instuição nada para desprezar.
Assim sendo, o nosso orgão lança fallação neste artigo que vem mesmo do seu fundo para se apresentar aos leitores.
Um pouco de philosophia.
É sabido e repetido que o brasileiro é um povo triste, tristeza que lhe advem do amalgama do “prelo”, arrancado á terra ardente da Africa e jungido ao captiveiro; do “portuguez” nostálgico da santa terrinha n’um clima quente em que so há de bom a producção da arvore da pataca, e di “índio”, tangido do seu home por aventureiros gananciosos.
Desta forma o riso, que é uma necessidade não só porque, desenvolvendo os músculos faciaes, dá ao rosto uma expressão natural de bonhomia, mas porque, desopilando o fígado, faz o homem mais cordato – tornou-se avis rara entre nós, provocando commentarios pouco louváveis sobre aqueles que em publico abrem a válvula denominada bocca deixando escapar contentamento por um facto qualquer jocoso.
Nós, então, pensámos, como verdadeiro órgão que somos (não encontra o leitor na imprensa da Victoria um jornal com titulo que se nos assemelhe), de contentar a tout le mond et son pére e mais os caricatos hypocritas de uma maneira gentil, como adiante se verá.

O que esperam os editores é divertir e alegrar os leitores, sem distinção de sexo. Seguem o editorial alertando que os homens e mulheres, ao deixarem seus afazeres para se deleitar com a leitura de O Olho, terão momentos de diversão que a “pilheria” apresentada lhes trará.

A pilheria, graciosa como uma phalena multicor, adejará sobre vós, leitoras, pertubando a confecção do vosso crochet, mas sem ao menos deixar cahir no regaço de vossa paz a menor sombra do pó de suas azas... Os leitores, marmanjos ou não, terão, lendonos, pontas de alfinetes que lhes tocarão de leve como um brinco de mulher amada... E só.

Todos os colaboradores assinam com pseudônimo. Alguns deles são: Chorão, J. Vieira, Jakin Fumaça, Luiz Dinart, Meneslau, Mussio Trincheira, Pancracio, Pupila, Quetonio, Quincas, Solitario, Tip-Top, Urquiza, Van-dick e Zarolho.
Dos vários poemas que aparecem nas páginas de O Olho, selecionamos um pequenino, assinado por Pupila, com o título “Muito engraçado...”, que foi publicado na segunda edição.


Muito engraçado...

Duas cousas me aborrecem
Desde o dia em que nasci:
A primeira é um dia feio
Decantal-o o bem-te-vi,
A segunda,
Muito embora
Eu tome tunda
De qualquer velha gaiteira,
Eu digo, já nesta hora,
É ouvir dizer que a semana
Começa,
Hom’essa
Em uma segunda feira!!!
Pupila

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