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Revista azul

por Maria Ione Caser da Costa
Tendo como diretor proprietário o escritor, jornalista e poeta Julio Pernetta (1869-1921) e o também poeta e escritor Dario Vellozzo (1869-1937) responsável pela redação, surge em agosto de 1893, na capital paranaense, o primeiro exemplar da Revista azul. Voltada para o público feminino e de caráter literário e artístico, foi com o título Nossos desígnios, que o redator apresentou a publicação:

Ahi vae, adorável leitora, o primeiro numero da Revista azul.
É mais uma sincera tentativa em prol da sacrossanta cruzada das lettras, mais uma esperança lisongeira que confiamos á vivificante caricia de vossas puríssimas affeições.
Sem Ella, sem a protectora égide de vossa benevolencia, como fugaz illusão que se evapora, a folhasinha desappareceria muito breve, eterno amortalhada sob as esmagadoras neves do indifferentismo. [...]

A seguir, Vellozo se exime de qualquer partidarismo em correntes literárias, primando-se apenas pela boa e aprazível leitura:

A Revista azul procurará sempre e sempre collocar-se à altura de vossas aspirações.
Ella não traz desfraldado nenhum estandarte de eschola, porquanto não admitte o partidarismo litterario; banindo tão somente de suas columnas o que for indigno de vosso finníssimo critério.

Logo abaixo do título e dos nomes de seus responsáveis lê-se a seguinte informação: “publica-se duas vezes ao mez. Os originaes remettidos á Redacção não serão devolvidos, embora deixem de ser publicados”, uma praxe dos periódicos daquele tempo, pois a devolução de correspondência representaria custos adicionais, nem sempre disponíveis para empreendimentos como aqueles.

A seguir o valor das assinaturas: as trimestrais valiam 2$000 na capital e 3$000 fora dela. Solicitava-se pagamento adiantado.

Composto e impresso pela Typographia e Litographia da Companhia Impressora, foi o primeiro periódico fundado por Dário Vellozo, de uma série de vários outros, que marcariam época na cena intelectual finissecular do estado do Paraná e do país. O escritório e a redação da Revista azul ficavam no número 17 da rua Quinze de Novembro.

A coleção de Revista azul é formada por seis exemplares, tendo sido suspensa em outubro de 1893, quando foi instaurada a revolta da armada – confronto armado ocorrido na última década do século XIX que evidenciou rivalidades entre os governantes do Brasil bem como entre as forças armadas (marinha e exército).

Os originais desta coleção encontram-se no setor de Obras Raras.

Cada exemplar é composto em 8 páginas, divididas em duas colunas separadas por um fio simples. Não apresentou ilustração. Um único desenho aparece na capa, ao lado do título, é a estrela de Davi no interior de um círculo.

O periódico publicou poemas, ensaios e crônicas de um grupo de literatos que buscavam afirmação no campo literário. Como destaque dos temas observa-se um simbolismo com nuances decadentistas.

Nas pesquisas não foram encontrados outros exemplares deste título. Apenas informações de que a interrupção teria se dado por ter sido deflagrada a Revolução Federalista, uma guerra civil ocorrida após a Proclamação da República, no sul do Brasil. O momento vivido carecia cuidados. Talvez para se resguardarem de futuros aborrecimentos seus editores informaram, nas últimas páginas alguns exemplares, sob o título Expediente, o seguinte texto:

Caso a “Revista Azul” suspenda a publicação deffinitivamente antes de expirado o praso das assignaturas, será pelo Director restituida aos Srs. Assignantes a importancia concernente aos mezes restantes.Por conveniência do serviço, a cargo do Director, as assignaturas serão cobradas até Dezembro do vigente anno .

Hoje os vários links e hiperlinks que nos remetem aos mais diversos textos em qualquer espaço da web, nos localizam as mais variadas informações. Um paralelo a estes links pode ser observado nas publicações do século XIX. Como exemplo no exemplar número 6 a nota: “São do ALBUM, periodico litterario, dirigido por Arthur Azevedo, as palavras: ‘Recebemos o primeiro numero da Revista Azul, de Coritiba (Paraná) que, sob a redação do Sr. Dario Vellozo e direcção do Sr. Julio Pernetta, se apresenta como “uma sincera tentativa em prol da sacrosanta cruzada das letras’.”

Colaboraram nos seis fascículos existentes na coleção da Biblioteca Nacional: A. Castilho, Affonso Gama, Alberto Rangel, Albino Silva, Antonio Braga, Antonio Feijó, Azevedo Macedo, C. Mendes, Coelho Netto, Cunha Brito, Dario Vellozo, Domingos Nascimento, Edmundo de Barros, Elyseo Montarroyos, João Itiberê, Julio Pernetta, Justiniano de Mello, Leoncio Correia, Luiz M. Oliveira, J. Tapitanga, Lycio de Carvalho, Marianna Coelho (Portugal, 1857-Curitiba, 1954), Marques Leite, Olavo Bilac, Saldanha sobrinho, Silveira Netto, Victor Hugo e Victorien Sardou.

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