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A Cigarra: hebdomadário

por Maria Ione Caser da Costa
Foi em 9 de maio de 1895, no Rio de Janeiro, capital da República, que veio a lume o hebdomadário A Cigarra. O editor e proprietário era Manoel Ribeiro Junior. A redação ficara a cargo de Olavo Bilac (1865-1918), um jovem escritor prestes a completar trinta anos.

As ilustrações da publicação eram responsabilidade do angolano Julião Machado (1863-1930), que, através da litografia, iniciou o processo de inserir textos em meio às imagens, uma técnica inovadora na produção das revistas ilustradas, numa inserção de desenhos zincografados
Medindo 33,5 cm x 25,5 cm, com oito páginas cada exemplar, A Cigarra aparecia sempre às quintas-feiras. Impressas em papel acetinado e com páginas totalmente ilustradas, mesclando texto e imagem.

Sua redação e escritório estavam localizados na rua do Ouvidor, 115, um dos endereços privilegiados da época, que se transformou em ponto de encontro da sociedade. Foi impressa nas Officinas Graphicas de J. Bevilacque & C. e circulou por quase um ano, sendo o último exemplar publicado o de número 37, que foi editado em 16 de janeiro de 1896.

No cabeçalho, uma epígrafe em grafia francesa do poeta Jean-Antoine Baif: “Il est hyver: danse, fainéante. Apprendes bestes, mon ami. ” Que pode ser traduzida como: “É inverno, dance, não faça nada, aprenda com os animais, meu amigo”.

A assinatura semestral de A Cigarra valia 25$000 e para a anual, o valor cobrado era de 48$000, enquanto o número avulso era vendido por 1$000.

Olavo Bilac na redação tinha a colaboração de Coelho Neto (que também assinava como Caliban), Aluisio Azevedo, Arthur Azevedo, dentre outros. Num texto bem-humorado, fazendo menção a fábula A Cigarra e as formigas de La Fontaine, onde a primeira cantava enquanto estas últimas trabalhavam, inicia o editorial apontando as várias definições que a palavra “cigarra”, pode receber, dependendo de quem a descreve: “um circunspecto naturalista”, “um burguez severo” ou um poeta. E, arremata o texto expondo o que pretendem oferecer:

Nós, porém, e o publico, só queremos saber que A Cigarra é um jornal illustraso, que não tem programma nenhum e terá muitos assignantes. Esta cigarra vae cantar emquanto o dinheiro chover dentro d’este escriptorio, como já está chovendo.
Amigos! O tempo dos romantismos passou. Póde-se amar, ao mesmo tempo, o calembourg e o paté de foic gras, as facécias de Gil Blas de Santilhana e as apólices da divida publica, os bellos olhos de uma mulher e o seu dote. Nós estimamos a propriedade: no dia em que tivermos casa própria e uma tiragem de 200.000 exemplares, nem por isso nos consideraremos incompatibilisados com a Graça e a Alegria, fontes perpetuas do rejuvenescimento.

Informando sua negação em seguir qualquer programa, o editorial segue numa constante comparação entre o periódico A Cigarra com a fábula citada acima. Ao final do texto relacionam outras publicações que circulavam à época e que poderiam ser suas concorrentes. Dentre elas está o jornal A Notícia, que foi o primeiro periódico nacional a publicar desenhos de Julião Machado, quando este ainda residia em Lisboa.

Ah! Na vida das cigarras, como na vida dos homens, a natureza faz saltos (quem foi o homem fútil que disse o contrario?) Hoje, as cantoras zombam das maldições e das prophecias do velho Lafontaine. É que, no tempo d’esse conselheiro Acacio dos animaes, ainda não haviam raiado no horizonte da vida theatral estas duas miraculosas invenções: os príncipes russos, que casam com as Patti, e o xarope de Jatahy que remenda as cordas vocaes das Irene Manzoni. A botica do Honorio e a aristocracia do Volga são as companhias de seguro de voz, a que recorrem as cigarras estrompadas pelo abuso do garganteio.
Mas A Cigarra espera ficar donzella, para eterna fúria da Russia, e livre do Jatahy, para fúria eterna da botica. Casará platonicamente com o favor publico, e, graças a uma rigorosa hygiene matrimonial, (leia-se: graças a uma despótica administração do Manoel Ribeiro), atravessará invernos e verões, estridulando e cantando.
Parece que não é preciso dizer mais nada: A Cigarra quer dar mais do que o que promette. Abram-nos espaqço a fulgurante Noticia, a velha sempre moça Revista e o altivo e bello D. Quixote. Para todo o mundo ha logar debaixo do sol e... dos quarenta e oito mil réis de assignaturas annual.


Seu conteúdo, majoritariamente literário incluía notas sociais e políticas, notícias sobre os teatros, críticas, poemas, crônicas e anúncios.

Olavo Bilac, que assinava seus textos também com alguns pseudônimos (Fantasio, Puck e L.F.), permanece como redator-chefe até o número 26, publicado em 31 de outubro de 1895. Na capa deste exemplar lê-se a seguinte nota:
Olavo Bilac, que desde o primeiro numero da Cigarra deu a esta ilustração o concurso inestimavel e inegualavel do seu talento, por motivos alheios á vontade dos que ficam, mas mantendo integra a solidariedade de impresa que a estes o ligava, deixou o cargo de redacror-chefe da Cigarra.
Se esta sahida nos desconsola e desalenta, os protestos de amizade e solidariedade com que ao realisa-a, nos penhorou, e a promessa formal de escrever a Chronica, fazem com que saibamos, n’este abandono cruel, ver no camarada de hontem, o amigo hontem, de hoje e de sempre.
Entra para a redação da Cigarra, como diretor çitterario, o distincto escritor Pedro Rabello, cujos trabalhos despensam mais longa apresentação.

O último exemplar de A Cigarra foi o de número trinta e sete e foi publicado em 16 de janeiro de 1896, sob a direção de Pedro Rabello.

Ilustrando e finalizando, selecionamos um poema de Adelina Lopes Vieira, publicado no número 23 de A Cigarra.


Os Velhinhos

Pobres dos velhinhos! Porque são velhinhos,
vivem a sonhar
com a sopinha quente, com o frouxel dos ninhos,
gozam... em sonhar...
Com voz tremulante chamam os netinhos,
que andam a cantar,
pelos trigaes louros, pelos ribeirinhos,
brincam a cantar.

Com os olhos cerrados a avozinha reza
noites e manhãs;
e cahe-lhe o rozario, que nas mãos lhe pesa,
todas as manhãs...
Balem corderitos soltos na devêza,
passam aldeans...
e a avozinha branca, cheia de tristeza,
vendo as aldeans,

moças fortes, rubras como as madrugadas,
cujo fresco rir
mostra trinta e duas perolas nevadas,
que encantado rir!
- a velhinha meiga, com as mãos enrugadas,
para as attrahir.
faz signaes de bençam... e ellas, namoradas,
deixam-se attrahir.

-Vinde, filhas! vinde! vinde ouvir historias.
Lendas milagrosas de condões e glorias!

- Conta-nos de amores! conta-nos de amores!
Dize o teu passado de ventura e dores!

- Amores, filhas, são sarçaes de espinhos duros,
envolvendo de todo uma celeste flor:
para se lhe chegar aos penetraes escuros,
oh dor! oh dor!
passa-se a juventude, e é lucta a vida inteira,
e desfallece a flor sem que, da morte á beira,
se lhe respire o olor!
Sangra o peito rasgado, a cabeça embranquece,
treme de frio o ser que nenhum raio aquece,
oh dor! oh dor!
e a ver brincar ao sol os trêfegos netinhos,
percorre em pensamento, os andados caminhos
da infância alegre, a mocidade em flor...
Quanta illusão azul em urze transformada!
Quanta roza em botão sem pena espezinhada!
oh dor! oh dor!

Ai! Saudades vóvosinha as mãos aos céos erguidas,
E correm-lhe na face as lagrimas doridas,
Contas de outro rozario, e que lentas resvalam
Pelos sulcos da edade, onde mais alto falam
que as bentas, ao Senhor!

E as camponeas rubras, com o olhar choroso,
Já não vão a rir.
- Ah! se o amor dos noivos fosse mentiroso!
- E se a flor murchasse sem ter vindo o esposo! –
Já não sabem rir!
Cantam passarinhos ao cahir do dia,
Viça a madresilva, soa a Ave-Maria.

Pobres dos velhinhos! Porque são velhinhos,
vivem a sonhar
com a sopinha quente, com o frouxel dos ninhos,
gozam... em sonhar.
Ao beijar as faces dos gentis netinhos,
recordando amores, a chorar carinhos,
morrem... a sonhar.

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